No mês de janeiro de 2024 recebi um convite, por parte do escritor Mário Máximo, para apresentar o primeiro romance sobre Ferreira de Castro: A Viagem para a Literatura ou o Destino de Ferreira de Castro. Ser-lhe-ei eternamente grata!
Máximo escreve compulsivamente poesia, mas também prosa, através de uma linguagem poética muito própria. Como castriano, o seu contributo tem sido pertinente para a compreensão da vida e obra de Ferreira de Castro. Por um lado, pelo rigor e perfeccionismo incansáveis do seu trabalho. Por outro lado, pela poesia que os reveste.
No que diz respeito ao grande Ferreira de Castro, cingir-me-ei a três palavras da sinopse de Uma Biografia (2023) – “excesso de biografia” – de onde germinarão dois tipos de biografia. A primeira de cunho factual e histórico, por Ricardo Alves, e a segunda de cariz ficcional, por Mário Máximo através deste primeiro romance sobre Castro.
A revelação do mistério castriano
Charles Baudelaire dizia: “Sou apaixonado pelo mistério, porque sempre tenho a esperança de desvendá-lo.”. Os motivos pelos quais escolhi esta citação Baudelairiana foram dois. Primeiro, foi o olhar de Castro na foto da capa do livro – um olhar deveras misterioso que nos convida a imergir. Segundo, porque Castro foi também um apaixonado pelo mistério, dando a volta ao mundo para tentar desvendar os mistérios da vida, pensando, questionando e lutando, sempre com esperança.
Máximo é também um apaixonado pelo mistério, neste caso castriano, também com a esperança de desvendá-lo. E, no fundo, é o que faz com este romance. Além do mesmo demonstrar o pleno conhecimento da vida e obra castrianas, demonstra também a forma como se entregou a Castro, vivendo o labor deste romance com desassossego, segundo suas palavras.
Máximo consegue uma belíssima ponte entre realidade e ficção e é na junção entre estes dois mundos que surge o grande mistério que foi a vida de Castro. Refiro esta expressão pela improbabilidade do seu percurso ou destino e pelo significado que isso acarreta na Literatura Universal. Mesmo cinquenta anos depois da sua morte, curiosos, estudiosos, investigadores e escritores tentam desvendar o grande mistério castriano. Mistério esse que se revela hoje diante de nós através deste romance.
É, então, perante a infinita e misteriosa curva da estrada castriana que Máximo se encontra, decidindo, como romancista, embarcar na sua carroça mágica, cujo ponto de partida e chegada será sempre Castro.
O romance – “primeira parte”
A Viagem para a Literatura ou o Destino de Ferreira de Castro tem cerca de 540 páginas em quatro partes, cada uma delas constituída por capítulos. Apesar do romance seguir uma ordem cronológica de acontecimentos reais, a forma intercalada como são ficcionados torna-o mais rico nos seus diálogos entre a realidade e ficção.
A primeira parte começa com A Viagem antes da Viagem e faz-nos recuar à descoberta do Brasil, por Pedro Álvares Cabral e Manuel da Bouça. Estas duas viagens introduzem A Viagem para a Literatura, protagonizada por Castro, e mostra-nos que “Há uma permanente arqueologia quando caminhamos para o futuro.” (p.31).
Ao longo da primeira parte é-nos descrita o início da viagem para o Brasil e como Castro navegou interiormente do Caima para o Rio Madeira. O contacto permanente na infância de Castro com a Natureza de Ossela marcou a forma como ele viajou e sentiu outros lugares. Castro sentiu sempre o aconchego e a nostalgia do rio Caima que “[...] no coração do escritor em formação, ia desaguar no rio Madeira [...] que corria para o mundo [...] duas instâncias vivas que se uniam e que iriam desaguar, uns passes de destino mais à frente, num outro manancial líquido, um oceano simultaneamente de águas doces e salgadas.” (pp.40-41).
Ainda na primeira parte, são abordadas peripécias de Castro, tanto no mundo real como onírico, que expressam o seu mundo emocional face à nova e avassaladora experiência. No capítulo “sentado junto às margens do Rio Madeira” Castro questiona: “Afinal, que diferença havia entre as courelas de Ossela e o seringal Paraíso? O trabalho duro e permanente, quase não dava tempo para mais nada.” (p.92). Aqui, surge uma atitude tipicamente castriana, de autorreflexão, a qual foi sempre crucial para pensar sobre as suas inquietudes e sobre as lutas sociais que travou consigo mesmo e com os outros.
Este romance aborda a forma perspicaz, emotiva e hipersensível como Castro lida com as dúvidas, incertezas e dificuldades no “inferno verde”, onde “[...] vira tudo e compreendera alguma coisa.” (p.100), e em Lisboa, na altura do regresso a Portugal, em 1919 e 1920. Tudo isso significa o recomeço da sua vida ou a continuidade do seu destino.
O romance – “segunda parte”
A segunda parte abre com a história de Maria Eugénia – Mimi Haas – Diana de Liz. “Mulher cerebral e mulher fêmea” (p.161), intensa e sofisticada, pela qual Castro se apaixonou e que morreu fatal e prematuramente de tuberculose. Acontecimento que fragilizou e marcou Castro para todo o sempre e tornou a figura de Diana de Liz numa figura omnipresente na sua vida e nas futuras relações com outras mulheres.
Os primeiros capítulos da segunda parte transmitem sensivelmente as tensões do primeiro contacto visual entre Castro e Diana de Liz. No seguimento dos próximos encontros românticos, ambos se procuram, têm conversas sobre o acaso e destino e sobre os sonhos sonhados e realizados e viajam até Paris, Andorra, etc. Mais à frente, encontramos cenas de intimidade entre o casal, já vivendo juntos em Lisboa, em permanente declaração de amor mútuo. Este será o momento e o lugar, onde Castro escreve o romance que o universaliza: “Na Rua Tenente Espanca, em Lisboa, corria o Rio Madeira assim como o Rio Madeira corria nas páginas que, umas às outras, se sucediam na confeção do livro que ele sabia ir chamar-se ‘A Selva’.” (p.225).
Os temas do amor e da humanidade são os principais temas castrianos e Máximo eleva-os ao mais alto nível, demonstrando como a solidariedade pelos injustiçados e o respeito pelos amantes é algo quase inato em Castro. O exemplo de D. Arminda da tabacaria é um dos exemplos que acentuam o ímpeto castriano da necessidade contínua de aprofundar “[...] os ideais de liberdade, de igualdade e de fraternidade.” (p.199) e “[...] da iluminação da cidadania esclarecida, associada ao calor do coração justo e fraterno.” (p.200).
Máximo não se limita ao universo castriano. Ele estende-o ao contexto vigente e confronta Castro com a questão da maçonaria, despoletando um diálogo entre ele, Campos Lima e Sobral de Campos no Martinho da Arcada, onde Fernando Pessoa aparece ocasionalmente e os saúda. Castro recusa educadamente o convite maçónico, mantendo-se fiel aos seus ideais e constatando, no final do capítulo, como a sua intuição foi a mais apurada.
Outro dos grandes temas de Castro são as mulheres que o tocaram, além de Margarida: Diana de Liz, Elena Muriel e também Maria Lamas. Em todas elas, Máximo conta a sua história para enquadrar na história de Castro. A inteligência emocional com a qual Máximo descreve a envolvência destas mulheres nas suas próprias vidas e na vida de Castro denota um sentido do feminino bastante aguçado e uma extrema habilidade poética na narrativa.
O romance – “terceira parte”
A terceira parte abre com a edição do Diário de Lisboa de 17 de novembro de 1945, onde constam dois momentos jornalísticos que marcam algum aligeiramento pontual da censura. Logo na primeira página a importantíssima entrevista a Castro sobre a censura e a liberdade. Depois na última página uma notícia atroz sobre os prisioneiros de Dachau que deixou Castro com náuseas.
Máximo dedica também dois capítulos aos hotéis, um em Sintra, outro na Serra da Estrela; ambos lugares laboratoriais da criação literária que Castro vivencia no exterior. Tal como Castro diz a Elena Muriel: “- Os lugares são uma espécie de gatilho para todas as histórias.” (p.318).
O tema do rio Caima é reiterado com intensidade nos capítulos sobre o moleiro do rio Caima. É impossível pensar nos passeios à beira rio, sem pensar na figura emblemática do Ti Zé Moleiro e Máximo ficciona nitidamente como os diálogos com este “[...] homem de muito poucas falas e abundantes silêncios.” (p.345) foram imprescindíveis para Castro. Por sua vez, o Ti Zé Moleiro é a personificação do mistério que, tantas vezes, assombra a cabeça de Castro: “Dentro de cada ser humano há um mistério pronto a ser revelado. Por mais fundo que habite no peito, há um dia que esse mistério vem ao de cima e sai em liberdade” (p.354).
O romance – “quarta parte ou vertigem para o mês de junho de 1974”
Avanço agora para a parte final do romance, a “quarta parte ou a vertigem do mês de junho de 1974” (p.461). Uma espécie de posfácio espiritual, onde Máximo relata desde o momento do acidente cardiovascular na Pensão Suissa à nota fúnebre de 1 de julho de 1974 no Diário de Notícias.
Há, de facto, uma tendência latente para o desafio, porque Máximo começou por desafiar-se ao escrever este romance e, de seguida, desafiou Ferreira de Castro, tornando-o “[...] personagem da sua vida que era o único romance que não escrevera nem escreveria [...]” (p.482), mas que Máximo se atreveu a escrever. No decorrer do romance, Máximo desafia Castro ao colocá-lo diante de conceitos menos favoritos tais como, a maçonaria e o esoterismo. Agora, o desafio agiganta-se e transcende, pois o tipo de narrativa, implementada nesta quarta parte, constitui algo inovador, mas ainda mais desafiante. Máximo imagina como é que Castro viveu os seus últimos dias de inconsciência. Há uma retrospetiva alargada de toda a sua vida, onde se vai despedindo de tudo e todos, inclusive de algumas personagens dos seus romances que, por sua vez, aproveitam para se reconciliar com o escritor e com o percurso que lhes foi destinado.
Conclusão
E termino dizendo que estamos realmente diante do primeiro romance sobre Ferreira de Castro e diante da sua primeira biografia romanceada, a qual perpetua o misterioso abraço luso-brasileiro dado por Castro desde cedo. A literatura líquida de Máximo oferece-nos um romance emotivo, profundo e consistente. Diria um romance de peso, não só pelas 540 páginas, mas também pela espessura existencial e filosófica contida na prosa poética deste romance, e pela memória dos 50 anos da morte de um dos maiores escritores portugueses do século XX.
Cristiana M. Oliveira